1.06.2015












Em dois mil e oito criei este blogue, é um blogue de opiniões pessoais, de modos muito próprios de interpretar e dar sentido ao mundo. Nunca esperei que fosse um sucesso, nunca o foi. Considerava, tal como agora, que as opiniões devem ser partilhadas, escutadas, porque a qualquer momento podem acrescentar alguma coisa à nossa vida, algo incrível, algo que possa, ainda que eventualmente, fazer a diferença, criar um sorriso, abrir uma porta, contribuir para uma tarde bem passada ou para um futuro promissor. Pessoalmente gosto muito de ter em conta diversas e distintas opiniões. 
Em dois mil e quinze volto a este blogue com a certeza de que não será um sucesso mas fará a diferença, pelo meu modo muito próprio de estar, ser e viver. 

















10.26.2011













O Erro da Humanidade é ser humana.

















12.15.2008

Władysław Szpilman, um piano à chuva.










o pianista
roman polanski







Władysław Szpilman tem os olhos tristes. eu esperei, toda a noite, que lhe fosse devolvida a pátria que lhe roubaram, esperei o frio no fim da linha do comboio. esperei o pão duro em cima da mesa, esperei em vão e chorei. chorei a minha vida na dele, a falta, o abandono e depois de tanto tempo, o sangue nas mãos, a morte. a casa é um quarto num andar de um prédio deserto onde os inquilinos são ratos e fugitivos. os cães são alemães e trazem ódio nos dentes, cerrados nas pernas, a comer a carne até ao osso. a polónia morre-lhe nas mãos esguias, nos dedos compridos de pianista sem tecto. eu chorei, a noite toda, esperei que o nocturne de chopin me entrasse pela porta do quarto e então talvez pudesse abrir o coração, desalojá-lo para finalmente habitar o meu próprio corpo. Władysław Szpilman sou eu em tempos e espaços diferentes. 

12.14.2008

adolfo correia rocha, o homem debaixo do guarda-chuva.










miguel torga
1907-1995






adolfo correia rocha. nascido no monte, por cima do sol, onde as velhas têm a cor da neve e as mãos são campos, onde nascem ervas daninhas. miguel torga para alguns, tantos, homens e mulheres cultos, que sabem, ou julgam que sabem quem foi o miguel ou o torga, ou os dois dentro de um. adolfo correia rocha foi menino, pequeno, trigueiro, com as calças curtas a dar-lhe pela canela, as meias às riscas e cobrir-lhe a perna e a boina, a boina que herdara do avô, de lado. é assim que te imagino torga e assim te olho hoje, de noite, com a luz da fogueira a bater-te no rosto de homem parido pela madrugada. adolfo não tinha tento na língua e à tardinha sentava-se a ver passar a caravana do dia inteiro, cajado na mão, samarra vestida que o frio entrenha-se na pele e morde os ossos. escrevia, algumas verdades que ainda hoje doem por serem certas. e por vezes chorava, como eu choro hoje, a cobardia dos homens, posta no trajecto de tantos nomes, nomes que são sucata, lixo, farinha do mesmo saco, barro do mesmo pote.


"E não diz a palavra!
Já não consegue a pura claridade
Da raiva que se exprime
Num grito que trespassa o firmamento!
Parafraseia a dor, como um pinheiro
Que tem medo do vento
E se torce na duma, horizontal, rasteiro,
A enrodilhar a voz do sofrimento.

Filho do instinto,
Perdeu a força heróica de arrancar
O aço do punhal que o atravessa
Morre por não ter pressa
De se salvar.
"
miguel torga







11.30.2008

amália, na voz que nunca doeu.












amália rodrigues


1920 - 1999







eras amália e os teus olhos enchiam-se de lágrimas a cada fado. sorrias, corrias com as mãos presas a um microfone. um dia amália, menina, a tua vida não foi estranha, foi um coração desapertado, aberto em ferida, uma canção em barco negro sobre o mar. mas amália, longe ou perto, estarás cheia como a maré de hoje, tempo frio, um pouco incerto, perdido entre a seda do teu xaile. não chores amália, sorri. sorri as tuas mãos abertas na voz rasgada, rouca, morta entre a fita das cassetes ou o suor dos cd's, ou, ainda, entre o negro dos discos de vinil. e eu choro contigo, ainda que de longe não me sintas as lágrimas, choro a ouvir-te cantar alguns fados travados de memórias, gastas como os teus passos, por todo o lado, a inventar novos rumos, outros jeitos de ser português. foste feliz amália, entre a cor dos teus olhos triste, de manhã, e a tua voz cansada, ao fim do dia. foste feliz como eu sou ao ouvir-te rasgar a tinta das paredes, comer-me a casa aflicta entre os dedos das tuas mãos.



11.20.2008

lolita, mais perto que o anoitecer








lolita
1997
filme de adrian lyne
baseado no romance de vladimir nabokov







lolita é a inocência dos que estão ausentes e vêem a vida de longe, mais perto do anoitecer, onde a saudade cai em câmara lenta sobre o mundo inteiro. lolita é o impossível a rasgar-nos o coração, a quebrar os grilhões da corrente e a levar-nos para longe, onde o amor é um sítio caótico-disperso e o lugar de ser é denso como o ar que respiramos. lolita é a fotografia, o sorriso metálico manchado de sangue, as pernas irrequietas debaixo dos lençóis, o cabelo molhado, as meias rasgadas, a confusão num armário, a mancha de leite nos lábios, o olhar descomprometido que roça a fugacidade dos dias. há em lolita a pressa de ir, como se o tempo lhe passasse debaixo dos pés enquanto corre e salta, lolita salta por cima do dramatismo da vida e faz-se sua aliada enquanto preenche o destino com a sua teimosia espontânea. lolita sorri com a boca cheia de malícia, não é uma malícia qualquer, é uma malícia doentia, uma força elevada ao quadrado de uma infância em apuros, um estatelar de cacos de encontro ao chão, um despreendimento dos bons costumes. apesar de tudo lolita soube ser um grande amor, um amor sincero, único, longe dos olhares críticos de uma sociedade, longe dos princípios gerais e da apatia de uma realidade sarcástica. lolita foi o bater acelerado no coração de um homem, o riso infantil entre as rugas de uma cara, um correr desesperado, uma morte anunciada muito antes de ser cumprida. lolita será sempre um sítio longe, mais perto do anoitecer.

"Lolita, light of my life, fire of my loins.My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo - Lee - Ta.
She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.
Did she have a precursor? She did, indeed she did. In point of fact, there might have been no Lolita at all had I not loved, one summer, a certain initial girl-child. In a princedom by the sea. Oh when? About as many years before Lolita was born as my age was that summer. You can always count on a murderer for a fancy prose style.
Ladies and gentlemen of the jury, exhibit number one is what the seraphs, the misinformed, simple, noble-winged seraphs, envied. Look at this tangle of thorns."


11.17.2008

babel, suicídio provisório







Babel
2006
alejandro gonzález iñárritu








babel é o suícido trágico, não intencional, de muitos destinos, é um serrar de emoções que, se a princípio nos parecem pela metade, depois contornam a nossa personalidade para se alojarem no mais íntimo de nós. desde o atentado, que não é atentado, à fuga policial que não é fuga, à morte não consumada. babel está rodeado de preceitos trágicos, alguns de especial importância outros nem tanto mas todos ligados, de tal modo, que se torna difícil não seguir o rumo da história ainda que em tempos diferentes. a surda/muda ao entrar na discoteca não sentirá o mesmo que a criança perdida no meio do deserto? o homem que vê a mulher ser atingida por uma bala, que não se sabe de onde veio, não sentirá o mesmo que a criança quando vê o seu irmão ser morto a tiro pela polícia? o rosto mais marcante talvez seja o da mulher mexicana, a velha mulher, a correr deserto fora à procura de ajuda, com o sol a escorrer-lhe da testa. há filmes que nos trazem vida outros que nos trazem morte, babel traz-nos a travessia, a linha ténue que os separa. os espaços e tempos diferentes dão ritmo à acção, chegam, por vezes, a ser elementos contrutivos importantes no pós suícidio de destinos. em babel encontramo-nos de frente com a vida e ela parece-nos uma pintura abstracta.