10.15.2008

manoel de oliveira, belle toujours








manoel de oliveira

nascido em 1908











manoel de oliveira é velho, velho como o preto e branco dos filmes, como os restos de um charuto a morrer no cinzeiro, como o cheiro do tejo antes da industrialização, manoel de oliveira é perfeito como um amante à espera no sítio do costume, como uma música encravada no gira discos, como um para sempre dito ao ouvido antes de adormecermos e ao acordarmos. ontem sentava-me na sala a ver belle toujours e chorei, o tiro no paralítico , a cara dela a correr com o corpo parado, os braços do amante e o terno cinza. chorei. chorei com o corpo todo, constrangido, eternizado num abraço a si próprio e do meu corpo em apuros, chorado, soltaram-se algumas palavras como estas, palavras que poderiam ter corrido, fugido para outro peito mas que se estatelaram contra o chão, morreram. manoel de oliveira merece o meu agradecimento, não pela maravilhosa história que nos tem contado em filmes que arrastam o tempo para a frente e para trás, como um baloiço, mas pelas minhas lágrimas, pelo meu rosto coberto dos rostos desabitados do choro, alado do mundo, perdido entre uma história que constrói o coração e outra que destrói um mundo inteiro. por isso muito obrigada manoel de oliveira, obrigada pela bala contra o corpo do paralítico , pela cara dela a correr sem o corpo, pelos braços do amante, pelo terno cinza.

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