eras amália e os teus olhos enchiam-se de lágrimas a cada fado. sorrias, corrias com as mãos presas a um microfone. um dia amália, menina, a tua vida não foi estranha, foi um coração desapertado, aberto em ferida, uma canção em barco negro sobre o mar. mas amália, longe ou perto, estarás cheia como a maré de hoje, tempo frio, um pouco incerto, perdido entre a seda do teu xaile. não chores amália, sorri. sorri as tuas mãos abertas na voz rasgada, rouca, morta entre a fita das cassetes ou o suor dos cd's, ou, ainda, entre o negro dos discos de vinil. e eu choro contigo, ainda que de longe não me sintas as lágrimas, choro a ouvir-te cantar alguns fados travados de memórias, gastas como os teus passos, por todo o lado, a inventar novos rumos, outros jeitos de ser português. foste feliz amália, entre a cor dos teus olhos triste, de manhã, e a tua voz cansada, ao fim do dia. foste feliz como eu sou ao ouvir-te rasgar a tinta das paredes, comer-me a casa aflicta entre os dedos das tuas mãos.
11.30.2008
amália, na voz que nunca doeu.
eras amália e os teus olhos enchiam-se de lágrimas a cada fado. sorrias, corrias com as mãos presas a um microfone. um dia amália, menina, a tua vida não foi estranha, foi um coração desapertado, aberto em ferida, uma canção em barco negro sobre o mar. mas amália, longe ou perto, estarás cheia como a maré de hoje, tempo frio, um pouco incerto, perdido entre a seda do teu xaile. não chores amália, sorri. sorri as tuas mãos abertas na voz rasgada, rouca, morta entre a fita das cassetes ou o suor dos cd's, ou, ainda, entre o negro dos discos de vinil. e eu choro contigo, ainda que de longe não me sintas as lágrimas, choro a ouvir-te cantar alguns fados travados de memórias, gastas como os teus passos, por todo o lado, a inventar novos rumos, outros jeitos de ser português. foste feliz amália, entre a cor dos teus olhos triste, de manhã, e a tua voz cansada, ao fim do dia. foste feliz como eu sou ao ouvir-te rasgar a tinta das paredes, comer-me a casa aflicta entre os dedos das tuas mãos.
11.20.2008
lolita, mais perto que o anoitecer

lolita
1997
filme de adrian lyne
baseado no romance de vladimir nabokov
lolita é a inocência dos que estão ausentes e vêem a vida de longe, mais perto do anoitecer, onde a saudade cai em câmara lenta sobre o mundo inteiro. lolita é o impossível a rasgar-nos o coração, a quebrar os grilhões da corrente e a levar-nos para longe, onde o amor é um sítio caótico-disperso e o lugar de ser é denso como o ar que respiramos. lolita é a fotografia, o sorriso metálico manchado de sangue, as pernas irrequietas debaixo dos lençóis, o cabelo molhado, as meias rasgadas, a confusão num armário, a mancha de leite nos lábios, o olhar descomprometido que roça a fugacidade dos dias. há em lolita a pressa de ir, como se o tempo lhe passasse debaixo dos pés enquanto corre e salta, lolita salta por cima do dramatismo da vida e faz-se sua aliada enquanto preenche o destino com a sua teimosia espontânea. lolita sorri com a boca cheia de malícia, não é uma malícia qualquer, é uma malícia doentia, uma força elevada ao quadrado de uma infância em apuros, um estatelar de cacos de encontro ao chão, um despreendimento dos bons costumes. apesar de tudo lolita soube ser um grande amor, um amor sincero, único, longe dos olhares críticos de uma sociedade, longe dos princípios gerais e da apatia de uma realidade sarcástica. lolita foi o bater acelerado no coração de um homem, o riso infantil entre as rugas de uma cara, um correr desesperado, uma morte anunciada muito antes de ser cumprida. lolita será sempre um sítio longe, mais perto do anoitecer.
"Lolita, light of my life, fire of my loins.My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo - Lee - Ta.
She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.
Did she have a precursor? She did, indeed she did. In point of fact, there might have been no Lolita at all had I not loved, one summer, a certain initial girl-child. In a princedom by the sea. Oh when? About as many years before Lolita was born as my age was that summer. You can always count on a murderer for a fancy prose style.
Ladies and gentlemen of the jury, exhibit number one is what the seraphs, the misinformed, simple, noble-winged seraphs, envied. Look at this tangle of thorns."
11.17.2008
babel, suicídio provisório
2006
alejandro gonzález iñárritu
alejandro gonzález iñárritu
babel é o suícido trágico, não intencional, de muitos destinos, é um serrar de emoções que, se a princípio nos parecem pela metade, depois contornam a nossa personalidade para se alojarem no mais íntimo de nós. desde o atentado, que não é atentado, à fuga policial que não é fuga, à morte não consumada. babel está rodeado de preceitos trágicos, alguns de especial importância outros nem tanto mas todos ligados, de tal modo, que se torna difícil não seguir o rumo da história ainda que em tempos diferentes. a surda/muda ao entrar na discoteca não sentirá o mesmo que a criança perdida no meio do deserto? o homem que vê a mulher ser atingida por uma bala, que não se sabe de onde veio, não sentirá o mesmo que a criança quando vê o seu irmão ser morto a tiro pela polícia? o rosto mais marcante talvez seja o da mulher mexicana, a velha mulher, a correr deserto fora à procura de ajuda, com o sol a escorrer-lhe da testa. há filmes que nos trazem vida outros que nos trazem morte, babel traz-nos a travessia, a linha ténue que os separa. os espaços e tempos diferentes dão ritmo à acção, chegam, por vezes, a ser elementos contrutivos importantes no pós suícidio de destinos. em babel encontramo-nos de frente com a vida e ela parece-nos uma pintura abstracta.
11.09.2008
fernando pessoa, um dia antes de amanhã.

fernando pessoa
1888 — 1935
1888 — 1935
ao fernando antónio nogueira pessoa
sento-me, a sala é enorme e a noite é pequena para tantas lágrimas. não quero saber da metafísica e do futurismo, sou só eu e a sala, sem lídias por quem chamar, sem flores pelas quais murchar, eu e a sala encostados ao tempo parado na infância. não quero saber se o ópio é um bom companheiro de crises de personalidade, nem tão pouco me interesso com o amanhã porque eu sei o que o amanhã trará, eu sei das facas, eu sei do fogo, eu sei da morte à espera em cada canto e sei, pessoa, eu sei do tanto que custa erguer os olhos diante da poeira. não me venhas falar do orpheu, da mocidade, da ofélia a costurar-te as meias, não sei de outro amor que não o da minha mãe, já de si pequeno, mais pequeno que o teu bigode. desculpa mas neste portugal não cabe nenhum quinto império e d.sebastião ainda não voltou como tu dizias, não há naus nem caravelas,há burros de carga. não tenho paciência para a vida. diz-me como fazias, como fazias para te não envenenares com o que eras, para não caíres estatelado no chão de lisboa. queria-te o jeito de andar, triunfante, nariz empinado, barriga aprumada, gabardine a esconder a gordura, o bigode aparado de dois em dois dias e o chapéu, o chapéu preto meio direito meio de lado, a ser a delícias das moças novas.eu não sei como conseguias. olha lá, falas em sonho, dizes que pelo sonho é que vamos, que o homem que sonha é um homem de acção mas eu sonho, sonho, sonho e volto a sonhar e a única acção fica entre o abrir e o fechar dos olhos. eu sei do lugar que ocupam os objectos inanimados, sei-os por detrás do olhar, tão dentro de nós que sobem ao cume do que somos e nos ferem, cravados nos olhos. esta sala que é minha já não sabe onde moro, era mais simples se aqui chegasses, tu e o álvaro de campos, arredassem os móveis todos para à frente da porta e depois nos sentássemos os três a beber uns copos a noite toda, assim não tinha por onde escapar. jogávamos às damas ou ao xadrez, eu não sei jogar xadrez mas tu devias saber, és inteligente, letrado, deves concerteza ser um exímio jogador de xadrez. eu não, não sei jogar, joga tu e o álvaro de campos, eu fico de fora. quando entramos em delírio perdemo-nos, tu deves saber isso melhor que eu, eu calo-me até porque quando tu falas, seja em prosa ou em poesia, o mundo cala-se, finalmente há um silêncio qualquer que se aninha ao canto da casa e adormece a vida. adormecer a vida nunca te foi fácil pois não, pessoa? a puta da vida, sempre tão curta, sempre tão vadia, sempre tão pouco dada ao que de nós conhecemos. tu também tiveste as tuas noites de desgosto, também te verteste todo em lágrimas. muitas e muitas noites, que ninguém sabe ao certo tudo o que viveste, tudo o que escreveste. quantos são? eles quantos são? não sei se tenho copos para dar de beber a tanta gente, ou então bebem todos do mesmo, penso com a garrafa na mão. entra pessoa, senta-te, nesta cadeira que a essa aprodeceram-lhe as pernas, está como há-de ir. há dias, tantos, em que não gosto nada de ti, não é por não gostar do que escreves, é por perceber demais, assimilar demais, mexes com as entranhas todas e chegas a magoar, a sangrar cá dentro como uma ferida crónica. nos restantes dias leio-te bem, descalça à lareira, às vezes queimo os pés mas a vermelhidão passa, o que não passa esta dor cá dentro, este não estar, este não saber, este não sentir ou sentir muito, este não sei o quê que incomoda do pescoço aos calcanhares. tu percebes, não é? e depois de tudo o que já passei, o que vem a seguir? um camião de gravilha para tapar os buracos? esta estrada não tem conserto pessoa. esta estrada não tem conserto. deixa-me lá chorar, não me ponhas a mão. às vezes leio-te às avessas, de trás para a frente a ver se percebo menos, a ver se te não percebo até, em vão, tudo é vão enquanto me ardo, e as cinzas que sou voltam a arder-te nas palavras, alinhadas em frases num texto perdido entre os tantos livros que de ti fizeram. eu quero morrer atropelada pelo que és, entupida de palavras que me dedicaste antes mesmo de saberes de mim. quero morrer, pessoa, um dia destes à tardinha com o teu livro entre mãos e mais um aniversário triste. e podem vir agora estes comtemporâneos falar de dor, de perda, de dano, que nenhum deles saberá o que custa a vida quando se é mais do que uma pessoa ao mesmo tempo. anda. vamos dormir que hoje é só um dia antes de amanhã.
11.06.2008
central do brasil, ao cair da tarde no parapeito da janela.

já chorei muitas vezes ao ver um filme mas nunca deixei que as lágrimas me queimassem a cara, esta tarde foi diferente, pela segunda vez conheci a história de dora e de josué e queimei os olhos, o nariz, a boca, queimei o rosto inteiro num choro. estou em apuros. neste filme walter salles consegue inquietar as entranhas, sangrar as vísceras daqueles que estão longe, longe como o josué, longe de si mesmos. fiquei quinze minutos sentada, no fim do filme, com a boca entreaberta e o sal das lágrimas a ferver na língua, quinze minutos em silêncio a ver correr o josué sobre o asfalto, os pés descalços, os braços mortos no espaço de um abandono, os olhos de dora à porta de um qualquer autocarro, enterrados numa carta escrita em letras maiúsculas como o verdadeiro amor deve ser. o filme é um regresso às origens, um reencontro com o que nós julgávamos morto. e voltamos a ser crianças, o corpo pequeno, a mãe esmagada debaixo de um autocarro, o rosto preso ao alcatrão, os olhos doridos de tanto chorar, as mãos frágeis a cair-nos do corpo, voltamos a ser o josué que há algum tempo perdemos. central do brasil será o filme de todas as minhas quintas-feiras, de todas as quintas horas de cada dia, de todos os quintos dias de cada segundo.

