11.06.2008

central do brasil, ao cair da tarde no parapeito da janela.







central do brasil
1998
de Walter Salles






já chorei muitas vezes ao ver um filme mas nunca deixei que as lágrimas me queimassem a cara, esta tarde foi diferente, pela segunda vez conheci a história de dora e de josué e queimei os olhos, o nariz, a boca, queimei o rosto inteiro num choro. estou em apuros. neste filme walter salles consegue inquietar as entranhas, sangrar as vísceras daqueles que estão longe, longe como o josué, longe de si mesmos. fiquei quinze minutos sentada, no fim do filme, com a boca entreaberta e o sal das lágrimas a ferver na língua, quinze minutos em silêncio a ver correr o josué sobre o asfalto, os pés descalços, os braços mortos no espaço de um abandono, os olhos de dora à porta de um qualquer autocarro, enterrados numa carta escrita em letras maiúsculas como o verdadeiro amor deve ser. o filme é um regresso às origens, um reencontro com o que nós julgávamos morto. e voltamos a ser crianças, o corpo pequeno, a mãe esmagada debaixo de um autocarro, o rosto preso ao alcatrão, os olhos doridos de tanto chorar, as mãos frágeis a cair-nos do corpo, voltamos a ser o josué que há algum tempo perdemos. central do brasil será o filme de todas as minhas quintas-feiras, de todas as quintas horas de cada dia, de todos os quintos dias de cada segundo.

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