
já chorei muitas vezes ao ver um filme mas nunca deixei que as lágrimas me queimassem a cara, esta tarde foi diferente, pela segunda vez conheci a história de dora e de josué e queimei os olhos, o nariz, a boca, queimei o rosto inteiro num choro. estou em apuros. neste filme walter salles consegue inquietar as entranhas, sangrar as vísceras daqueles que estão longe, longe como o josué, longe de si mesmos. fiquei quinze minutos sentada, no fim do filme, com a boca entreaberta e o sal das lágrimas a ferver na língua, quinze minutos em silêncio a ver correr o josué sobre o asfalto, os pés descalços, os braços mortos no espaço de um abandono, os olhos de dora à porta de um qualquer autocarro, enterrados numa carta escrita em letras maiúsculas como o verdadeiro amor deve ser. o filme é um regresso às origens, um reencontro com o que nós julgávamos morto. e voltamos a ser crianças, o corpo pequeno, a mãe esmagada debaixo de um autocarro, o rosto preso ao alcatrão, os olhos doridos de tanto chorar, as mãos frágeis a cair-nos do corpo, voltamos a ser o josué que há algum tempo perdemos. central do brasil será o filme de todas as minhas quintas-feiras, de todas as quintas horas de cada dia, de todos os quintos dias de cada segundo.
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