
fernando pessoa
1888 — 1935
1888 — 1935
ao fernando antónio nogueira pessoa
sento-me, a sala é enorme e a noite é pequena para tantas lágrimas. não quero saber da metafísica e do futurismo, sou só eu e a sala, sem lídias por quem chamar, sem flores pelas quais murchar, eu e a sala encostados ao tempo parado na infância. não quero saber se o ópio é um bom companheiro de crises de personalidade, nem tão pouco me interesso com o amanhã porque eu sei o que o amanhã trará, eu sei das facas, eu sei do fogo, eu sei da morte à espera em cada canto e sei, pessoa, eu sei do tanto que custa erguer os olhos diante da poeira. não me venhas falar do orpheu, da mocidade, da ofélia a costurar-te as meias, não sei de outro amor que não o da minha mãe, já de si pequeno, mais pequeno que o teu bigode. desculpa mas neste portugal não cabe nenhum quinto império e d.sebastião ainda não voltou como tu dizias, não há naus nem caravelas,há burros de carga. não tenho paciência para a vida. diz-me como fazias, como fazias para te não envenenares com o que eras, para não caíres estatelado no chão de lisboa. queria-te o jeito de andar, triunfante, nariz empinado, barriga aprumada, gabardine a esconder a gordura, o bigode aparado de dois em dois dias e o chapéu, o chapéu preto meio direito meio de lado, a ser a delícias das moças novas.eu não sei como conseguias. olha lá, falas em sonho, dizes que pelo sonho é que vamos, que o homem que sonha é um homem de acção mas eu sonho, sonho, sonho e volto a sonhar e a única acção fica entre o abrir e o fechar dos olhos. eu sei do lugar que ocupam os objectos inanimados, sei-os por detrás do olhar, tão dentro de nós que sobem ao cume do que somos e nos ferem, cravados nos olhos. esta sala que é minha já não sabe onde moro, era mais simples se aqui chegasses, tu e o álvaro de campos, arredassem os móveis todos para à frente da porta e depois nos sentássemos os três a beber uns copos a noite toda, assim não tinha por onde escapar. jogávamos às damas ou ao xadrez, eu não sei jogar xadrez mas tu devias saber, és inteligente, letrado, deves concerteza ser um exímio jogador de xadrez. eu não, não sei jogar, joga tu e o álvaro de campos, eu fico de fora. quando entramos em delírio perdemo-nos, tu deves saber isso melhor que eu, eu calo-me até porque quando tu falas, seja em prosa ou em poesia, o mundo cala-se, finalmente há um silêncio qualquer que se aninha ao canto da casa e adormece a vida. adormecer a vida nunca te foi fácil pois não, pessoa? a puta da vida, sempre tão curta, sempre tão vadia, sempre tão pouco dada ao que de nós conhecemos. tu também tiveste as tuas noites de desgosto, também te verteste todo em lágrimas. muitas e muitas noites, que ninguém sabe ao certo tudo o que viveste, tudo o que escreveste. quantos são? eles quantos são? não sei se tenho copos para dar de beber a tanta gente, ou então bebem todos do mesmo, penso com a garrafa na mão. entra pessoa, senta-te, nesta cadeira que a essa aprodeceram-lhe as pernas, está como há-de ir. há dias, tantos, em que não gosto nada de ti, não é por não gostar do que escreves, é por perceber demais, assimilar demais, mexes com as entranhas todas e chegas a magoar, a sangrar cá dentro como uma ferida crónica. nos restantes dias leio-te bem, descalça à lareira, às vezes queimo os pés mas a vermelhidão passa, o que não passa esta dor cá dentro, este não estar, este não saber, este não sentir ou sentir muito, este não sei o quê que incomoda do pescoço aos calcanhares. tu percebes, não é? e depois de tudo o que já passei, o que vem a seguir? um camião de gravilha para tapar os buracos? esta estrada não tem conserto pessoa. esta estrada não tem conserto. deixa-me lá chorar, não me ponhas a mão. às vezes leio-te às avessas, de trás para a frente a ver se percebo menos, a ver se te não percebo até, em vão, tudo é vão enquanto me ardo, e as cinzas que sou voltam a arder-te nas palavras, alinhadas em frases num texto perdido entre os tantos livros que de ti fizeram. eu quero morrer atropelada pelo que és, entupida de palavras que me dedicaste antes mesmo de saberes de mim. quero morrer, pessoa, um dia destes à tardinha com o teu livro entre mãos e mais um aniversário triste. e podem vir agora estes comtemporâneos falar de dor, de perda, de dano, que nenhum deles saberá o que custa a vida quando se é mais do que uma pessoa ao mesmo tempo. anda. vamos dormir que hoje é só um dia antes de amanhã.
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