adolfo correia rocha. nascido no monte, por cima do sol, onde as velhas têm a cor da neve e as mãos são campos, onde nascem ervas daninhas. miguel torga para alguns, tantos, homens e mulheres cultos, que sabem, ou julgam que sabem quem foi o miguel ou o torga, ou os dois dentro de um. adolfo correia rocha foi menino, pequeno, trigueiro, com as calças curtas a dar-lhe pela canela, as meias às riscas e cobrir-lhe a perna e a boina, a boina que herdara do avô, de lado. é assim que te imagino torga e assim te olho hoje, de noite, com a luz da fogueira a bater-te no rosto de homem parido pela madrugada. adolfo não tinha tento na língua e à tardinha sentava-se a ver passar a caravana do dia inteiro, cajado na mão, samarra vestida que o frio entrenha-se na pele e morde os ossos. escrevia, algumas verdades que ainda hoje doem por serem certas. e por vezes chorava, como eu choro hoje, a cobardia dos homens, posta no trajecto de tantos nomes, nomes que são sucata, lixo, farinha do mesmo saco, barro do mesmo pote.
"E não diz a palavra!
Já não consegue a pura claridade
Da raiva que se exprime
Num grito que trespassa o firmamento!
Parafraseia a dor, como um pinheiro
Que tem medo do vento
E se torce na duma, horizontal, rasteiro,
A enrodilhar a voz do sofrimento.
Filho do instinto,
Perdeu a força heróica de arrancar
O aço do punhal que o atravessa
Morre por não ter pressa
De se salvar."
miguel torga

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