12.15.2008
Władysław Szpilman, um piano à chuva.
Władysław Szpilman tem os olhos tristes. eu esperei, toda a noite, que lhe fosse devolvida a pátria que lhe roubaram, esperei o frio no fim da linha do comboio. esperei o pão duro em cima da mesa, esperei em vão e chorei. chorei a minha vida na dele, a falta, o abandono e depois de tanto tempo, o sangue nas mãos, a morte. a casa é um quarto num andar de um prédio deserto onde os inquilinos são ratos e fugitivos. os cães são alemães e trazem ódio nos dentes, cerrados nas pernas, a comer a carne até ao osso. a polónia morre-lhe nas mãos esguias, nos dedos compridos de pianista sem tecto. eu chorei, a noite toda, esperei que o nocturne de chopin me entrasse pela porta do quarto e então talvez pudesse abrir o coração, desalojá-lo para finalmente habitar o meu próprio corpo. Władysław Szpilman sou eu em tempos e espaços diferentes.

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