10.15.2008
manoel de oliveira, belle toujours
manoel de oliveira é velho, velho como o preto e branco dos filmes, como os restos de um charuto a morrer no cinzeiro, como o cheiro do tejo antes da industrialização, manoel de oliveira é perfeito como um amante à espera no sítio do costume, como uma música encravada no gira discos, como um para sempre dito ao ouvido antes de adormecermos e ao acordarmos. ontem sentava-me na sala a ver belle toujours e chorei, o tiro no paralítico , a cara dela a correr com o corpo parado, os braços do amante e o terno cinza. chorei. chorei com o corpo todo, constrangido, eternizado num abraço a si próprio e do meu corpo em apuros, chorado, soltaram-se algumas palavras como estas, palavras que poderiam ter corrido, fugido para outro peito mas que se estatelaram contra o chão, morreram. manoel de oliveira merece o meu agradecimento, não pela maravilhosa história que nos tem contado em filmes que arrastam o tempo para a frente e para trás, como um baloiço, mas pelas minhas lágrimas, pelo meu rosto coberto dos rostos desabitados do choro, alado do mundo, perdido entre uma história que constrói o coração e outra que destrói um mundo inteiro. por isso muito obrigada manoel de oliveira, obrigada pela bala contra o corpo do paralítico , pela cara dela a correr sem o corpo, pelos braços do amante, pelo terno cinza.
10.14.2008
chopin, o coeficiente da música poética

chopin
1810 - 1849
ballade no. 1 de chopin
da grandiosidade da sua obra destaco os "nocturnes" que me socorrem as noites num desassossego reconfortante. a minha vida alimenta-se de música e chopin consegue cobrir todos os vazios dentro e fora de mim, ocupar os espaços em volta, empacotar a minha tristeza e arrumá-la delicadamente no convés de um qualquer navio. chopin enche-me o peito de um ar puro, às vezes é irremediável o sufoco, as palavras engasgadas à porta da boca, o silêncio interrompido pelas batidas suaves como as sombras da madrugada, terríveis como o adeus último às coisas.
devagar escutar o toque dos dedos no piano e sorrir ao chorar tudo o que ficou entalado dentro do peito, no lugar do coração. chopin é assim, incrível no que nos dá, perfeito no que nós próprios nos damos, porque ouvir chopin implica ouvir o coração a bater-nos no peito, porque ouvir chopin é saber-nos sangue a viajar pelo corpo, dentro das veias em tumulto.
e as notas musicais não invadem o espaço exterior, as notas musicais arrastam o espaço exterior para dentro de nós, enclausuram as paredes, o tecto, o chão, os móveis entre os ossos e a carne do corpo e é irremediável o grito seguinte, a dor a gemer-nos pelos poros no alarme das vísceras. ouvir chopin é libertarmo-nos dos grilhões que nos aprisionam ao que somos, sermos este, aquele, o outro, nós, vós, eles e ainda assim achar que não nos somos suficientes.
10.13.2008
rui nunes, em queda livre sobre a solidão.

rui nunes
escritor português
nascido em 1947.
" Nunca se escapa da pátria, das muitas pátrias que há: da
pátria que é a língua, da pátria que é a terra, da pátria que
é a família, da pátria que é o passado."
rui nunes é, de entre todos os escritores portugueses da actualidade, o meu preferido. rui nunes é o rei dos espaços e das personagens, dos sentimentos figurados por entre linhas onde nasce vida ou morte, até porque a morte é uma súbtil forma de nos sentirmos vivos, dentro e fora de nós mesmos, ateados por um fogo qualquer que de dentro nos mata da cabeça aos pés ou dos pés à cabeça já que o mundo se vira ao avesso. rui nunes é um exemplo vivo deste avesso, o contrário prescrito por uma temática forte em essência e existência. a sua prosa é um caudal de pedaços de histórias que vestem o corpo de pesadelos, pesadelos que lhe pertencem mas que prefere ignorar; a sua poesia não mata mas mói, come a carne toda até ao osso, dói nas dobras do corpo que estático ainda inventa outros caminhos por onde ir, onde morrer.
a escrita de rui nunes é um encontro com a nossa própria solidão, uma aprendizagem, um auto-conhecimento a cada palavra, sem medo, sem nada, apenas com o desespero a coçar as pontas dos dedos e a ferver na testa. é a distância atrás da voz, o cesto vazio à porta da casa, um pedaço de trigo a apodrecer na praça até que um pombo o leve no bico.
da pessoa rui nunes pouco se sabe e do pouco que se sabe nada se diz, ainda bem que assim é porque ser conhecido não é, por certo, o seu passatempo favorito, já do escritor muito fica por dizer e o reconhecimento é tardio como o pecado de ser consagrado neste país, título que chega aos justos apenas com a morte.
